A despedida.
A falta de tempo e a fuga da musa ditam o fim desta etapa.
Meia Lua Inteira quis ser a continuação de um
projecto mais ou menos bem sucedido, sem efectivamente o conseguir. Percebi então que o caminho não é por aqui, o que não significa que cá não volte pontualmente para deixar algumas marcas, porque acima de tudo dá-me gozo escrever. No entanto, é provável que um novo projecto se inicie em breve, num registo eventualmente diferente desta experiência literária.
A todos os que têm acompanhado o meu percurso
bloguístico um agradecimento sentido, porque por diversas vezes foram o meu motor de arranque.
Beijinhos e até já,
Patrícia Fernandes.
Tenho mais sensações que quando me sentia eu.

"Na véspera de não partir nunca
Ao menos não há que arrumar malas
Nem que fazer planos em papel,
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos,
Para o partir ainda livre do dia seguinte.
Não há que fazer nada
Na véspera de não partir nunca.
Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego!
Grande tranquilidade a que nem sabe encolher ombros
Por isto tudo, ter pensado o tudo
É o ter chegado deliberadamente a nada.
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre,
Como uma oportunidade virada do avesso.
Há quantas vezes vivo
A vida vegetativa do pensamento!
Todos os dias sine linea
Sossego, sim, sossego...
Grande tranquilidade...
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas!
Que prazer olhar para as malas fítando como para nada!
Dormita, alma, dormita!
Aproveita, dormita!
Dormita!
É pouco o tempo que tens!
Dormita!
É a véspera de não partir nunca!"
Permitam-me partilhar com vocês a minha mais recente
paixão. Descobri uma
voz fenomenal, uma
personalidade forte, que se arrisca a cantar um dos mais geniais poetas portugueses. E a grande coincidência é que se chama M. Pinto. Soa familiar? Apresento-vos
Margarida Pinto, vocalista dos Coldfinger a cantar a solo. Um prazer sobejamente igual ao de
não cumprir um dever...Durante algum tempo podem escutar uma das suas músicas aqui, Na véspera de não partir nunca..., feita a partir do poema de Álvaro de Campos transcrito acima.
Não entrava às nove nem saía às cinco, porque a sua profissão não era como as outras. Só trabalhava quando a morte lhe batia à porta. A morte dos familiares dos outros. A morte dos amigos dos outros. E então chorava à beira dos defuntos, de joelhos, com o lenço em punho, enquanto alguém dava o sermão e se prestava a última homenagem. Depois cantava um cântico e continuava a chorar, de olhos postos no céu. E fazia-o como se de uma causa sua se tratasse. Ninguém diria que as lágrimas eram pagas a peso de ouro, porque cada uma delas estava ansiosa por jorrar cá para fora, de tão apertado que o seu coração vivia. Antes de ganhar a vida assim, já chorava dia e noite, no alto das suas águas-furtadas emprestadas à solidão. Chorava ao ponto de escorrer rua abaixo. Não tinha ninguém que lhe enxugasse a cara, e talvez fosse por isso que ainda chorava mais. Até que um dia, decidiu fazer da tristeza uma forma de trazer pão para casa, já que era a sua única arte. E da arte fez vida.
E continuavam a ser tristes, os dias da carpideira...
Ela gostava da perfeição das coisas simples. Era por isso que não se preocupava muito com o detalhe e o arrojo. Preferia a arte de se regozijar com momentos leves, carregados de espontaneidade. Recusara sempre que lhe ensinassem o que era o amor por ser um tema demasiado complexo. Isso aborrecia-a. Nunca tinha tirado mais que cinco minutos seguidos do seu tempo para reflectir sobre coisas que não fazem parte do circuito fechado que é a razão.
'O intelecto não alcança aquilo que o coração sente.', acreditava.
Mas um dia pôs-se a pensar no que seria uma prova de amor. Sem precisar pensar muito, porque se precisasse jamais o faria, entendeu que a maior prova de amor lhe era dada quando ela chegava com as mãos frias e as punha dentro da camisola dele, para as aquecer, e ele não dizia nada. Apenas sorria. E sorria com um sorrir que aquece. E deixava-a encostar as palmas das mãos enregeladas às suas costas quentes, e sofria um sofrer agradável, porque era sofrido com amor. Ela nunca se sentiu mal por fazê-lo, porque sabia que era com prazer que ele lhe aquecia as mãos. E quando ela as tirava, ele pedia-lhe para as deixar mais um pouco. E era capaz de adormecer assim...
Foi graças a um par de mãos frias que descobriu o que era o Amor.
Resoluções de Ano Novo (ou Quero).
Em 2007 QUERO voltar a dormir numa praia deserta. Voar mais e pousar menos. Caminhar sobre a água. Meias luas a escorrer inteiras do telhado da casa no verão. Sentir a tua pele molhada mais vezes. Que o primeiro raio de sol da manhã volte a nascer no meu nariz. Os banhos de mangueira no quintal. Rebolar no colchão. Subir à montanha mais alta e deixar lá a minha bandeira. Deitar-me contigo à lareira. As conversas e os risos debaixo dos lençois. As noites de festa com cristo e kalash. Atravessar a ponte com os cabelos ao vento. Perder o comboio para poder adiar a despedida de ti. Quero-A a Ela. Quero a música que faz bem à alma. Um sopro no coração. Um beijo ao ouvido. Dormir as sestas longas depois de almoço. Fazer um filme. Escrever um manual de amor. Tatuar-te as costas das mãos com a palavra que mais me apetece dizer-te. Ver nevar outra vez. Adormecer a contar estrelas. Soprar bruxinhas de algodão. Beber xiripiti. Cair numa almofada gigante. Mergulhar na nona onda. Juntar chocolate à comida convencional. Ouvir a porta a abrir, sem voltar a fechar. Que chovam rebuçados!
E, principalmente, quero que 2007 seja o ano que todos os anos esperamos que seja.
Feliz Natal!
Esta consegue ser simultaneamente a noite mais fria e mais quente do ano.
Paz, Amor, Saúde.
E um beijo na testa.
- Há tesouros por toda a parte!
(Meses depois), estou mais certa que nunca de que nada paga um abraço sentido coberto de saudades. Apetece-me dizer tantas coisas, mas fico-me pelo simples registo do bater de coração provocado pelo reencontro. No meio da multidão dispersa, a correr do metro para o autocarro, do autocarro para o eléctrico, do eléctrico para o barco, dois sorrisos alinhados pelo prazer de se voltarem a avistar. A Amizade é mesmo a mais bela forma de Amor.
-É uma caneca de chocolate quente com natas daquelas que o menu diz que trazem um amigo emigrante como brinde, se faz favor!